Clínica Chadu

Gastroenterologia

Dúvidas de gastroenterologia

As perguntas que mais aparecem na consulta de aparelho digestivo, respondidas com o mesmo cuidado que teriam no consultório.

Respostas escritas por Dr. Marcos Antônio Chadu — CRM-GO 9254, RQE 6479 (Gastroenterologia), da Clínica Chadu, em Itumbiara (GO).

Gastroenterologia

Refluxo, azia e estômago

Azia quase todo dia é normal? Quando devo investigar?

Azia ocasional depois de um excesso é comum e não significa doença. O que muda o quadro é a frequência: sintomas duas vezes por semana ou mais, por várias semanas, já configuram doença do refluxo gastroesofágico e merecem avaliação — não apenas mais um antiácido de farmácia.

Alguns sinais pedem investigação independentemente da frequência: dificuldade ou dor para engolir, vômitos persistentes, anemia, sangramento, perda de peso não intencional ou história familiar de câncer de esôfago ou de estômago. Nesses casos, a endoscopia costuma ser indicada logo, e não depois de meses de tentativa com medicação.

Refluxo tratado por conta própria durante anos é uma das situações que mais vemos no consultório. O risco não é o desconforto — é que o remédio alivia o sintoma e adia o diagnóstico de algo que precisaria ser visto.

Refluxo tem cura?

Depende do que está causando. Quando o refluxo vem de fatores que podem ser modificados — excesso de peso, refeições volumosas à noite, álcool, tabagismo, algumas medicações — o controle pode ser duradouro e, em parte dos casos, o paciente deixa de precisar de medicação contínua.

Quando há uma alteração anatômica, como uma hérnia de hiato volumosa ou uma válvula entre esôfago e estômago que não fecha adequadamente, o tratamento clínico controla o sintoma enquanto é usado, mas não corrige a causa. É nesse grupo que a cirurgia entra na discussão.

O caminho honesto é este: investigar antes de prometer. Endoscopia, e às vezes pHmetria e manometria, mostram de que tipo de refluxo se trata — e é isso que define se o objetivo realista é controle ou correção.

O que é hérnia de hiato? Preciso operar?

Hérnia de hiato é a passagem de parte do estômago para o tórax através da abertura natural do diafragma. É um achado frequente na endoscopia e, sozinha, muitas vezes não causa sintoma nenhum.

Hérnias pequenas, sem sintomas, geralmente não exigem tratamento. A conversa sobre cirurgia aparece quando a hérnia é grande, quando o refluxo não se controla com medicação bem conduzida, quando há esofagite persistente, ou quando o paciente prefere não depender de medicação por décadas.

Encontrar hérnia de hiato no laudo, portanto, não é motivo de alarme. É informação que se interpreta junto com os sintomas e com o restante do exame.

Uso omeprazol há anos. Isso faz mal?

Os inibidores de bomba de prótons — omeprazol, pantoprazol, esomeprazol e semelhantes — são medicamentos seguros e muito estudados. O uso prolongado tem sido associado a redução da absorção de vitamina B12, ferro, cálcio e magnésio, e a um pequeno aumento no risco de algumas infecções intestinais. São associações, com magnitude modesta na maioria dos estudos.

A pergunta mais útil não é se o remédio faz mal, e sim por que ele ainda está sendo tomado. Há indicações em que o uso contínuo é correto e necessário. Há outras em que a medicação foi iniciada há anos, para um sintoma que já passou, e ninguém reavaliou desde então.

Traga a caixa e a data de início na consulta. Rever a indicação, ajustar a dose ou planejar a retirada gradual é parte do acompanhamento — suspender de uma vez costuma provocar efeito rebote e a sensação de que o remédio era indispensável.

Como sei se tenho gastrite? Preciso de endoscopia?

Gastrite é um diagnóstico do que se vê e do que a biópsia mostra, não do que se sente. Dor ou queimação na boca do estômago, empachamento e náusea sugerem dispepsia — um conjunto de sintomas que pode vir de gastrite, mas também de úlcera, refluxo, vesícula, medicação ou de nenhuma alteração visível.

Por isso o rótulo "gastrite nervosa", tão usado, atrapalha: ele encerra a investigação antes de ela começar. A endoscopia é o exame que diferencia essas possibilidades, e permite pesquisar H. pylori na mesma sessão.

Em pessoas jovens, sem sinais de alarme, é razoável tratar primeiro e observar a resposta. Acima dos 40 anos, com sintoma novo e persistente, ou diante de qualquer sinal de alarme, o exame vem antes.

Gastrite pode virar câncer?

A imensa maioria das gastrites não evolui para câncer. Existe, porém, uma via conhecida: a gastrite crônica causada por H. pylori pode, ao longo de décadas e em parte das pessoas, levar a atrofia da mucosa e a metaplasia intestinal, que são consideradas lesões precursoras.

É justamente por isso que o laudo da endoscopia e o resultado da biópsia importam mais do que a palavra "gastrite" isolada. Quando há atrofia extensa ou metaplasia, existe recomendação de acompanhamento endoscópico em intervalos definidos — e essa vigilância é o que permite identificar alterações em fase inicial.

Guarde seus laudos e leve-os à consulta. A comparação com o exame anterior costuma valer mais do que qualquer exame isolado.

Tenho H. pylori. Preciso tratar mesmo sem sintoma?

Na orientação atual dos consensos brasileiros e internacionais, sim: a recomendação é tratar sempre que a bactéria for encontrada, porque ela é reconhecida como agente causal de úlcera e como fator de risco para câncer gástrico. A erradicação reduz esse risco, sobretudo quando feita antes de haver lesão avançada da mucosa.

O tratamento dura de 10 a 14 dias e combina antibióticos com um inibidor de ácido. Efeitos como gosto metálico, náusea e alteração do hábito intestinal são comuns e passageiros. Interromper no meio é o principal motivo de falha e favorece resistência bacteriana.

Depois do tratamento é preciso confirmar que a bactéria foi eliminada, com teste respiratório, pesquisa em fezes ou nova endoscopia, respeitando o intervalo mínimo de quatro semanas do fim do antibiótico. Tratar sem confirmar deixa a dúvida em aberto.

Preciso cortar café, pimenta e álcool?

Não existe uma lista universal de proibições. O que existe é a sua lista: os alimentos que, de forma repetida, pioram o seu sintoma. Café, frituras, pimenta, chocolate, cítricos, bebidas gaseificadas e álcool são os candidatos mais frequentes, mas cada pessoa reage de um jeito.

Dois hábitos têm efeito consistente e valem mais do que qualquer restrição de cardápio: não deitar nas três horas seguintes à refeição e reduzir o volume do jantar. Elevar a cabeceira da cama em 15 centímetros ajuda quem tem sintoma noturno.

Álcool e tabaco merecem menção à parte: além de piorarem o refluxo, são fatores de risco estabelecidos para câncer de esôfago, e o efeito dos dois combinados é maior que a soma.

Gastroenterologia

Intestino

Sangue nas fezes é sempre hemorroida?

Não, e essa é a suposição que mais atrasa diagnóstico. Hemorroida é a causa mais comum de sangramento vermelho vivo, mas pólipos, câncer colorretal, doença inflamatória intestinal, divertículos e fissuras também sangram — e podem sangrar exatamente do mesmo jeito.

O detalhe importante: quem tem hemorroida também pode ter uma segunda causa simultânea. Encontrar hemorroidas no exame não descarta o resto.

Sangramento nas fezes merece avaliação médica em qualquer idade, e com mais urgência quando vem acompanhado de mudança do hábito intestinal, emagrecimento, anemia ou história familiar de câncer de intestino. Aos 45 anos ou mais, a colonoscopia costuma ser o exame indicado.

Com que idade devo fazer a primeira colonoscopia?

Aos 45 anos para quem não tem sintomas nem história familiar. A Sociedade Brasileira de Coloproctologia e a Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva adotam essa idade, acompanhando a tendência internacional. A antecipação em relação aos antigos 50 anos se deve ao aumento de casos de câncer colorretal entre adultos mais jovens.

Com caso na família, começa antes. A regra prática é dez anos antes da idade em que o parente foi diagnosticado: se um irmão descobriu aos 48, você investiga aos 38. Vários parentes acometidos, ou diagnóstico muito precoce na família, exigem avaliação individual e podem indicar investigação de síndromes hereditárias.

E em qualquer idade, sintomas de alarme não esperam pela idade de rastreamento: sangue nas fezes, mudança persistente do hábito intestinal, anemia sem causa aparente ou perda de peso não explicada.

De quanto em quanto tempo repito a colonoscopia?

O intervalo depende do que o exame anterior encontrou, e é por isso que o laudo e o resultado da biópsia precisam ser guardados.

Como referência: exame normal em pessoa de risco habitual costuma ser repetido em dez anos. Poucos pólipos pequenos, do tipo adenoma tubular, geralmente levam a intervalos de cinco a sete anos. Pólipos numerosos, grandes ou com características de maior risco na biópsia encurtam o intervalo para um a três anos.

Há um fator que muitos pacientes desconhecem: preparo intestinal insuficiente encurta o intervalo, porque o exame não conseguiu ver tudo. Seguir as orientações do preparo à risca não é rigor desnecessário — é o que evita repetir o exame antes da hora.

O intervalo correto é sempre o que consta no seu laudo. Números gerais servem para você entender a lógica, não para substituir a recomendação individual.

Pólipo no intestino sempre vira câncer?

Não. A maior parte dos pólipos nunca se transformaria em câncer. Mas praticamente todo câncer colorretal começou como um pólipo, e não há como saber, olhando, quais seguiriam esse caminho. Por isso a conduta é retirar.

A transformação, quando ocorre, costuma levar anos — o que abre uma janela de oportunidade rara em medicina. A colonoscopia é o único exame de rastreamento que não apenas detecta como previne: o pólipo é retirado no mesmo procedimento, e o câncer que ele poderia originar deixa de existir.

O material retirado vai para análise em laboratório de anatomia patológica. É esse resultado que define de que tipo de pólipo se tratava e em quanto tempo o exame deve ser repetido.

O exame de sangue oculto nas fezes substitui a colonoscopia?

Não substitui, mas tem lugar. O teste imunoquímico de sangue oculto é uma estratégia válida de rastreamento populacional, especialmente onde o acesso à colonoscopia é limitado. É simples, não invasivo e repetido anualmente.

As diferenças importam: o teste detecta sangramento, não lesões. Pólipos costumam não sangrar, e por isso passam despercebidos. E, sobretudo, o teste não trata — qualquer resultado positivo termina em colonoscopia de qualquer forma.

Um resultado negativo também não é um passe livre: ele reduz a probabilidade naquele momento, mas precisa ser repetido a cada ano para manter algum valor.

Intestino preso há anos. Preciso investigar?

Constipação de longa data, estável, que responde a fibras, água e atividade física, geralmente é funcional e não exige exame. O que muda a conduta é a mudança recente do padrão — alguém que sempre funcionou bem e passou a ter dificuldade, ou o contrário.

Pedem investigação: início após os 45 anos, fezes que afinaram, sangue, sensação de evacuação incompleta persistente, dor abdominal associada, anemia ou perda de peso.

Vale também revisar a lista de medicamentos. Analgésicos opioides, alguns antidepressivos, anti-hipertensivos, suplementos de ferro e antiácidos com alumínio prendem o intestino, e a causa passa despercebida por meses.

O que é síndrome do intestino irritável?

É um distúrbio funcional do intestino: dor ou desconforto abdominal recorrente relacionado à evacuação, acompanhado de alteração da frequência ou da forma das fezes. Funcional significa que o intestino não funciona bem, não que o sintoma seja imaginário — a dor é real e mensurável em qualidade de vida.

O diagnóstico é clínico, feito por critérios definidos, e não depende de um exame que "dê positivo". Exames são pedidos para afastar outras causas quando há sinais de alarme: sangue, febre, anemia, emagrecimento, sintomas noturnos que acordam o paciente ou história familiar de doença inflamatória intestinal ou câncer.

O tratamento combina ajuste alimentar, manejo de constipação ou diarreia, medicação para dor e atenção ao componente de estresse e sono, que influencia diretamente o eixo intestino-cérebro. Não é cura rápida, mas o controle costuma ser satisfatório.

Diverticulose: é grave? Preciso de dieta?

Divertículos são pequenas bolsas na parede do intestino grosso, muito frequentes depois dos 50 anos. Tê-los é chamado de diverticulose e, na maioria das pessoas, não causa sintoma nem exige tratamento. É um achado comum na colonoscopia.

Diverticulite é outra coisa: a inflamação de um desses divertículos, com dor abdominal localizada — em geral à esquerda e baixa —, febre e alteração do hábito intestinal. Aí sim há necessidade de avaliação médica, e às vezes de internação.

Sobre a dieta: a antiga proibição de sementes, castanhas, milho e pipoca não se sustentou nos estudos e foi abandonada. A recomendação atual é o contrário — dieta rica em fibras, boa hidratação e atividade física parecem reduzir episódios inflamatórios.

Diarreia que não passa: quando procurar o gastro?

Diarreia aguda, de causa infecciosa, costuma se resolver em poucos dias com hidratação. O que exige avaliação é a diarreia que persiste por mais de quatro semanas, ou aquela que vem com sinais de gravidade em qualquer momento.

Procure atendimento sem esperar diante de: sangue ou muco nas fezes, febre persistente, sinais de desidratação, dor abdominal intensa, emagrecimento, ou diarreia que acorda você à noite — este último ponto ajuda muito a diferenciar causa orgânica de causa funcional.

A investigação depende do quadro e pode incluir exames de sangue e de fezes, pesquisa de doença celíaca, avaliação de intolerâncias e colonoscopia com biópsias.

Como se diagnostica doença de Crohn ou retocolite?

As doenças inflamatórias intestinais costumam se manifestar em pessoas jovens, com diarreia prolongada, sangue nas fezes, dor abdominal, urgência para evacuar, emagrecimento e cansaço. Sintomas fora do intestino — articulações, pele, olhos — podem aparecer junto e são pistas relevantes.

O diagnóstico reúne história clínica, exames de sangue e fezes (a calprotectina fecal ajuda a diferenciar inflamação de quadro funcional), colonoscopia com biópsias, e exames de imagem para avaliar o intestino delgado quando há suspeita de doença de Crohn.

São doenças crônicas, com períodos de atividade e de remissão, e o acompanhamento regular é o que sustenta o controle. Não são causadas por alimentação ou por nervosismo, embora ambos influenciem os sintomas.

Gastroenterologia

Fígado, vesícula e pâncreas

Meu exame mostrou esteatose hepática. É grave?

Esteatose é o acúmulo de gordura no fígado. É muito comum, frequentemente descoberta por acaso em um ultrassom de rotina, e na maior parte das pessoas não causa sintoma. Não é motivo de pânico — e também não é achado para ignorar.

Em uma parcela dos casos existe inflamação associada, que ao longo de anos pode levar a fibrose e, mais raramente, a cirrose. O que define o risco não é a palavra no laudo do ultrassom, e sim a avaliação conjunta: enzimas hepáticas, plaquetas, presença de diabetes, obesidade, hipertensão e alterações do colesterol, além de exames que estimam fibrose, como a elastografia.

O tratamento com maior evidência continua sendo a perda de peso sustentada, redução de açúcares e ultraprocessados, atividade física regular e controle das doenças associadas. Uma redução de 7 a 10% do peso corporal é capaz de reverter a inflamação em boa parte dos pacientes.

Minhas transaminases (TGO/TGP) vieram alteradas. E agora?

Alteração leve de enzimas hepáticas é um achado frequente e tem muitas causas possíveis: gordura no fígado, álcool, medicamentos e suplementos, hepatites virais, doenças autoimunes, alterações da tireoide e até exercício físico intenso nos dias anteriores à coleta.

Um valor isolado raramente fecha diagnóstico. O que orienta é o padrão — qual enzima subiu mais, quanto acima do normal, e como se comporta ao ser repetida. Leve o exame anterior, se tiver, e a lista completa do que você toma, incluindo suplementos, termogênicos e chás.

A investigação costuma incluir sorologias para hepatites B e C, avaliação metabólica e ultrassom do abdome. É um roteiro objetivo, e vale a pena percorrê-lo em vez de repetir o mesmo exame indefinidamente.

Tenho pedra na vesícula mas não sinto nada. Preciso operar?

Cálculos de vesícula sem sintoma nenhum, descobertos por acaso, na maioria das vezes podem ser apenas acompanhados: a chance de virem a causar problema é relativamente baixa a cada ano.

Há exceções em que se discute a cirurgia mesmo sem sintomas — cálculos muito grandes, vesícula com paredes calcificadas, pólipos associados, algumas situações em pacientes diabéticos ou candidatos a outras cirurgias abdominais. É uma decisão individual, tomada com o exame de imagem em mãos.

A partir do momento em que aparece a primeira crise de dor, a lógica se inverte: quem já teve um episódio tende a ter outros, e o tratamento passa a ser indicado. As dúvidas sobre a operação estão reunidas nas dúvidas de cirurgia do aparelho digestivo.

Como é a dor de cálculo na vesícula?

A dor típica é forte, na parte alta e à direita do abdome ou na boca do estômago, podendo irradiar para as costas ou para o ombro direito. Costuma começar depois de uma refeição gordurosa, durar de trinta minutos a algumas horas e ceder — só para voltar em outro episódio.

Náusea e vômito acompanham com frequência. Já queimação, empachamento e gases não são sintomas típicos de vesícula, embora muita gente atribua a ela.

Procure atendimento imediatamente se a dor durar mais de seis horas, vier com febre e calafrios, ou se aparecerem olhos e pele amarelados e urina escura. Esses sinais sugerem complicação e não devem esperar consulta agendada.

O que é pancreatite e o que a causa?

É a inflamação do pâncreas. A dor é intensa, na parte alta do abdome, com irradiação para as costas em faixa, e costuma vir com vômitos. É um quadro que exige atendimento hospitalar — não é caso de observar em casa.

As duas causas mais comuns, respondendo pela maioria dos casos, são cálculos da vesícula que migram e obstruem a via biliar, e o álcool. Triglicerídeos muito elevados, alguns medicamentos e procedimentos sobre a via biliar respondem por parte do restante.

Quando a causa é a vesícula, a retirada dela depois da recuperação é o que evita a repetição do episódio — e essa é uma indicação cirúrgica bem estabelecida.

Gastroenterologia

Sintomas que preocupam

Estou emagrecendo sem fazer nada. Devo me preocupar?

A perda de peso involuntária é levada a sério quando ultrapassa 5% do peso corporal em seis a doze meses sem mudança de dieta ou de atividade física. Para quem pesa 80 kg, são 4 kg.

As causas são muitas e nem todas graves: alterações da tireoide, diabetes descompensado, depressão, uso de medicações, doença celíaca, doença inflamatória intestinal, infecções crônicas e, sim, neoplasias. A investigação segue uma ordem lógica e costuma partir de exames de sangue e de uma boa história clínica.

Quando a perda de peso vem acompanhada de dificuldade para engolir, dor abdominal persistente, sangramento, anemia ou alteração do hábito intestinal, a avaliação não deve ser adiada.

Sinto dificuldade para engolir. O que pode ser?

Disfagia — dificuldade para engolir — é um sintoma que sempre merece investigação, sem período de observação. Pode vir de esofagite por refluxo, de estreitamentos, de alterações da motilidade do esôfago como a acalasia, de esofagite eosinofílica ou de tumores.

Descreva bem o que sente, porque isso orienta o raciocínio: dificuldade só com sólidos, que foi piorando ao longo de semanas, aponta para uma direção; dificuldade com sólidos e líquidos desde o início, com episódios que vão e voltam, aponta para outra.

A endoscopia digestiva alta costuma ser o primeiro exame, por permitir ver, biopsiar e, em algumas situações, tratar no mesmo tempo.

Barriga estufada e gases o tempo todo: é normal?

Distensão abdominal é um dos sintomas mais frequentes e um dos mais difíceis de resolver com uma resposta única. As causas mais comuns são constipação, síndrome do intestino irritável, intolerâncias alimentares — lactose e frutanos à frente — e excesso de alimentos fermentáveis na dieta.

Hábitos contribuem mais do que se imagina: comer rápido, falar durante a refeição, mascar chiclete, beber líquido com gás e usar canudo aumentam a quantidade de ar engolido.

Distensão que apareceu de forma recente e progressiva, especialmente após os 50 anos ou acompanhada de emagrecimento, alteração do hábito intestinal ou aumento persistente do volume abdominal, precisa de avaliação — não é caso de tentar dietas por conta própria.

Tomar probiótico resolve os problemas do intestino?

Probióticos têm benefício demonstrado em situações específicas: prevenção de diarreia associada a antibióticos, alguns quadros de diarreia infecciosa e certos casos de síndrome do intestino irritável. O efeito é modesto e depende da cepa utilizada — não é uma classe única de produto.

O que não há é evidência de que tomar probiótico continuamente, sem indicação, melhore a saúde intestinal de quem não tem sintoma. E como são vendidos como suplementos, a variação de qualidade entre marcas é grande.

Antes de investir num produto por tempo indeterminado, vale identificar o que está causando o sintoma. Em boa parte dos casos, ajustar fibras, hidratação e horários das refeições resolve mais e custa menos.

Intolerância à lactose e alergia ao leite são a mesma coisa?

Não, e a diferença é importante. A intolerância à lactose é a dificuldade de digerir o açúcar do leite, por deficiência da enzima lactase. Causa gases, distensão, cólica e diarreia algumas horas depois da ingestão. Não envolve o sistema imunológico e não é perigosa — a maioria das pessoas tolera pequenas quantidades.

A alergia à proteína do leite é uma reação imunológica, mais comum em crianças, e pode causar manifestações de pele, respiratórias e digestivas, eventualmente graves. Exige exclusão rigorosa.

O diagnóstico da intolerância pode ser feito por teste respiratório ou por exclusão seguida de reintrodução controlada. Antes de eliminar laticínios da vida, vale confirmar — o leite é uma fonte relevante de cálcio, e a restrição desnecessária tem custo.

Como se investiga doença celíaca?

A doença celíaca é uma reação imunológica permanente ao glúten, que danifica o intestino delgado. Pode se manifestar com diarreia e distensão, mas também de formas silenciosas: anemia por deficiência de ferro que não responde ao tratamento, osteoporose precoce, alterações de enzimas hepáticas, aftas de repetição ou infertilidade.

A investigação começa por exames de sangue — anticorpo antitransglutaminase IgA com dosagem de IgA total — e a confirmação, no adulto, é feita por biópsias do duodeno durante a endoscopia.

Um cuidado que muda tudo: não retire o glúten antes de investigar. Sem glúten na dieta, tanto o exame de sangue quanto a biópsia podem vir normais, e a pessoa fica com uma restrição para a vida inteira sem diagnóstico definido.

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